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Fotografia e arte contemporânea

Janeiro 12, 2008

Foto na Arte

Objectivos:

Organizar um conjunto de eventos em Serralves para discutir de uma forma alargada as relações entre a fotografia e a arte contemporânea.

Criar as condições favoráveis para existir uma discussão participada, alargada e polémica.

Contexto:

É consensual reconhecer a importância que a invenção da fotografia, em meados do século XIX, teve na arte contemporânea e em particular nas chamadas artes plásticas. No entanto, desde então, a relação da fotografia com as artes plásticas tem sido tudo menos pacífica e tem passado por diversas fases. Desde a sua descoberta, há cerca de 150 anos, que a fotografia tem sido desde rejeitada liminarmente pelos artistas plásticos, considerada com desprezo como um processo mecânico e tecnológico e portanto não criativo, até nos nossos dias se assistir a uma dita apropriação da fotografia por muitos dos mais conceituados artistas plásticos.

Apesar de a fotografia ter cerca de 150 anos, só na década de 30 do século XX houve um autor, Walter Benjamin, que reflectiu de uma forma profunda sobre o impacto que inevitavelmente a fotografia teria na forma como a arte se posiciona na nossa sociedade. E os textos de Benjamin só na década de 60 foram traduzidos para inglês. E só no final do século XX foram reconhecidos como essenciais para compreender o novo contexto artístico, na área da fotografia, do filme e da internet. W. Benjamim compreendeu pela primeira vez que a fotografia e o filme não só ofereciam novas formas de expressão artística, como modificavam radicalmente as formas de olharmos e compreendermos as técnicas mais tradicionais. Uma pintura, que até aí só poderia ser vista pelo seu possuidor ou, quando muito, por quem visitasse a sala do museu onde estava exposta, passaria a poder ser reproduzida, centenas, milhares, milhões de vezes, com uma qualidade hoje quase insuperável, podendo ser vista por milhões de pessoas. A internet veio nos últimos anos introduzir uma nova dimensão neste processo. Seria curioso comparar a forma como as artes plásticas se adaptaram a este processo de massificação e de banalização com o que aconteceu noutros domínios da arte, como sejam a música ou a literatura mas esse é um objectivo fora do contexto deste projecto

Em Portugal, até à década de 80, a fotografia era considerada como uma arte menor, sem estatuto para conseguir entrar em muitos eventos artísticos. Era, na melhor das hipóteses recambiada, juntamente com outras formas de arte menores, todas baseadas em técnicas de reprodução, como a serigrafia ou a gravura, para pequenos espaços subalternos.

Mas, por razões diversas, assistimos hoje a essa tal dita apropriação da imagem fotográfica e do vídeo por uma nova geração de artistas plásticos. Tem havido no entanto neste processo, em meu entender, um conjunto de equívocos que revelam desconhecimento ou, pelo menos, uma continuação de um olhar conservador relativamente à fotografia, que leva por exemplo algumas pessoas, vindas das artes plásticas, a distinguir uma forma superior de fotografia, que segundo eles se não insere na história da fotografia e que nada tem a ver com a cultura da fotografia nem com a fotografia dos fotógrafos. É segundo esses autores uma fotografia, onde a técnica e qualidade pouco valem. É o que chamam a fotografia “usada” pelos artistas plásticos.

Estas posições têm conduzido nomeadamente a um olhar estreito sobre a fotografia contemporânea, valorizando projectos onde a imitação e a clonagem dos valores dominantes são aspectos evidentes, em detrimento de propostas verdadeiramente inovadoras e interessantes.

Eu tenho-me confrontado algumas vezes com estes equívocos e tenho procurado de alguma forma contribuir para uma discussão pública destas questões. No blog, ou melhor na espécie de blog que mantenho, e noutros textos que escrevi, tenho tentado, com as limitações de quem não é um teórico, reflectir sobre estas questões. Mas a discussão pública nunca aconteceu e continua a não acontecer. Pelo contrário, parece existir mesmo, em minha opinião, e ao invés do que seria, talvez ingenuamente, natural supor, um ambiente muito fechado no campo das artes, que dificulta ou mesmo impossibilita uma discussão aberta e franca destas questões.

Na sequência destas tomadas de posição, fui convidado pelo director do Museu de Serralves, reconhecendo o papel que Serralves deve ter em contribuir para uma discussão pública e sem constrangimentos de todas as questões relacionadas com a arte contemporânea, para organizar em colaboração com Teresa Siza, ex-directora do CPF, um conjunto de eventos com o objectivo de discutir de uma forma alargada as relações entre a fotografia e a arte contemporânea.

Objecto:

Um conjunto de iniciativas, ainda a definir, que possibilitem uma discussão pública e alargada sobre a fotografia e a arte contemporânea.

  • Pretendem-se confrontar pontos de vista de pessoas com formações e opiniões diversas.
  • Pretende-se uma discussão aprofundada, mas aberta a públicos alargados, ou seja a toda a gente interessada nas relações da fotografia com a arte contemporânea.
  • Pretendem-se criar um conjunto de mecanismos, que podem ir desde material impresso a blogs e a outros, que permitam dinamizar o confronto de opiniões e a discussão.

 

Meios:

A iniciativa vai ter o apoio de Serralves e utilizará as infra-estruturas disponíveis no museu. Os meios a utilizar vão depender do conjunto de iniciativas a realizar (em discussão).

 

Plano

1. Sistematização das questões chave (ponto onde nos encontramos)

Estamos, com a colaboração da Maria do Carmo Serém, a tentar reunir algum material e dessa forma listar as questões-chave a abordar e, se possível, a confrontar nesta iniciativa

2. Elaboração de um plano detalhado

Plano detalhado da iniciativa, com um orçamento, que defina o conjunto das pessoas a envolver e o conjunto de iniciativas a desenvolver

3. Preparação da iniciativa

4. Realização durante o ano de 2008

Bibliografia:

  • Fotografia na Arte – Colecção de Serralves – editado por Ricardo Nicolau

Crítica ao livro  acima em:

  • Vários tiddlers em www.renatoroque.com/umaespeciedeblog/
  • A obra de arte na era da reprodução mecânica – Walter Benjamin
  • A fotografia como documento social – Gisele Freund
  • Estética fotográfica – Joan Fontcuberta
  • Beijo de Judas – Joan Fontcuberta

Renato Roque. Janeiro 2008

12 pm

Janeiro 12, 2008

12 pm - VeilHolmen

Objectivos:

Realizar um projecto de fotografia contemporânea a partir de imagens feitas à meia-noite na Noruega, durante o solstício de verão.

Explorar a cumplicidade entre a fotografia e a poesia, com poemas do Jorge Sousa Braga

Reflectir sobre a resistência à globalização cultural

Reflectir sobre o tema de viagem

Contexto:

O projecto 12pm é um projecto de fotografia contemporânea, construído a partir de fotografias, feitas na Noruega no ano de 2006, durante o solstício de Verão, todas à volta da meia-noite (12pm).

Quase sempre as coisas que são capazes de mais nos surpreender, seduzir e encantar são as coisas mais simples: uma rabanada de vento nas ervas, uma revoada de pássaros, um odor antigo, um charco de água, uma luz misteriosa.

Aquilo que mais me surpreendeu, seduziu e encantou ao visitar em 2006 a Noruega foi afinal aquela luz azul misteriosa da meia-noite nórdica.

As fotografias que integram o projecto foram realizadas em Trondheim, na Atlantic Road, na ilha de Smola, na pequena aldeia piscatória de Veiholmen, sempre ao longo da costa marítima norueguesa. É uma região bastante abaixo do círculo polar árctico e onde portanto há noite, mas uma noite iluminada, por uma luz feita de mistério, que a acende.

O projecto é um projecto foto-poético, realizado com a colaboração do poeta Jorge Sousa Braga, que escreveu textos poéticos para acompanhar as imagens.

O projecto explora as relações de cumplicidade e de proximidade entre a fotografia e a poesia – vem na continuidade de um projecto anterior, D’ouro d’Alendouro, sobre a paisagem de Trás-os-Montes, também com Jorge Sousa Braga. E estas relações são tantas! De facto, se considerarmos, por exemplo, as propostas literárias de Italo Calvino para o próximo milénio (hoje, já é o milénio actual), constatamos facilmente como a poesia e a fotografia se identificam de uma forma completamente natural com cada uma das suas propostas. A leveza, rapidez, exactidão, visibilidade e multiplicidade são quase sempre características dos melhores poemas e das melhores fotografias. Há na poesia, como na fotografia, essa capacidade para contar históricas, sem as contar, esse contar onírico do que é e não é, esse contar que nos leva a sermos nós a ter contar a história que nos contam.

Um tema inerente ao projecto é também o tema da viagem. Uma viagem no espaço geográfico, mas ao mesmo tempo uma viagem interior. Uma viagem onde se cruzam alguns dos locais mais turísticos da Noruega – Fiorde de Geiranger e a garganta de Trollstigen são Património da Humanidade – e pequenos lugares desconhecidos e onde o destino afectivo e fotográfico acaba por ser muito diferente do destino planeado e marcado no mapa.

Um outro aspecto que se pode relacionar com este projecto tem a ver com o fenómeno presente de globalização cultural. Vivemos num mundo onde há uma tendência para criar uma única realidade cultural, imposta pelos padrões culturais dominantes. As cidades e as gentes parecem-se cada vez mais. Comemos, bebemos e vivemos cada vez mais de forma idêntica. Mas, apesar do poder enorme dessa força agregadora, há aspectos que nunca poderão ser globalizados e que poderão ser factores de resistência e de individualidade cultural. São muitas vezes aspectos muito subtis, mas inigualáveis e irreproduzíveis. Como o tema central do trabalho: a luz mágica e única da meia-noite norueguesa. Curiosamente a Noruega é dos poucos países que se tem recusado aaderir à UE.

Objecto:

Editar um livro de fotografia bilingue com as fotografias e os poemas do J. S. Braga e com um texto de apresentação de Jorge Silva Melo. Design de Rui Mendonça

Apresentar o livro em Portugal e na Noruega

Realizar um projecto de fotografia com fotografias, projecções e com os poemas do J.S. Braga

 

Meios:

O projecto tem já um pequeno apoio de edição do Ministério da Cultura.

Estão em negociação com a Embaixada da Noruega alguns apoios para o projecto.

O projecto está também a ser negociado com a Biblioteca de Trondheim, para acontecer lá em Maio de 2008.

A galeria Serpente mostrou disponibilidade para realizar o projecto no Porto

 

Plano.

  1. Já temos as fotografias separadas e temos os poemas escritos pelo J.S. Braga
  2. O Rui Mendonça está a fazer o design do livro. Esperamos ainda pelo texto do J.S. Melo
  3. Estamos a negociar a tradução dos textos para norueguês/inglês
  4. Edição do livro em Março de 2008
  5. Apresentação do livro em Trondheim em Maio 2008
  6. Projecto no Porto na galeria Serpente em data a fixar

Bibiografia:

  • Seis Propostas para o próximo Milénio – Italo Calvino
  • D’ouro d’Alendouro – Renato Roque e Jorge Sousa Braga – editado por gémeo ®

 

 

 

 

Renato Roque. Janeiro 2008