O suicídio como perpetuação da memória.
José António Passos
Obviamente trata-se de um sub-título provocador á imagem do pequeno texto que aqui deixei há uns dias atrás. Vem este a propósito do facto de hoje em dia a maior parte das pessoas que conhecem ou ouviram falar do escritor Camilo Castelo Branco, apenas saberem que ele se suicidou. Nada mais. Isto nota-se de maneira elucidativa no público que visita a casa museu de Camilo em Ceide, O que todos querem ver é a pistola e a cadeira. Ora este interesse por apenas este episódio da vida apaixonante e imensamente criativa do escritor, poderá ser muito positiva, e ser o catalizador para a descoberta da sua vida e obra.
Objectivo
Dar a minha modesta contribuição no campo da Arte e Comunicação Multimédia, em termos do que precisa ser feito, ou melhor, daquilo que está á espera de ser feito. Os conteúdos, são hoje uma grande e complexa problemática. Aquilo que não é passível de tradução digital deixa de existir. Como tratar da herança histórica tradicionalmente analógica? Paradoxalmente aquilo que está a matar o analógico (era digital), poderá ser a sua salvação e até ultrapassar…O meu objectivo será dar a conhecer e registar digitalmente a vida e obra do escritor Camilo Castelo Branco, através de um filme documentário, estruturado em narrativas não lineares, composto por pequenos clips que poderão ser visionados independente e aleatoriamente através da internet. Este documentário terá uma dimensão dinâmica e poderá ter a participação de quem quer e de onde quer que seja, através de uma plataforma criada com esse propósito.
Contexto
A era digital, com a interactividade e a sua capacidade socializadora é a grande realidade deste próximo século. A aldeia global começa a tomar uma forma em que as distâncias geográficas e as barreiras culturais se esvanecem e misturam, em que as relações de poder entre o “centro” e a “periferia”tendem para a ruptura, em que com a cada vez mais elevada definição digital, aumento da largura de banda, facilidade de acesso e manuseamento tecnológico, portabilidade e mobilidade em minúsculos dispositivos, o cinema será cada vez mais participativo, mais colectivo, fragmentário e em que o espectador deixará de ser apenas um consumidor passivo, e poderá intervir, decidir e inclusive participar como personagem dentro da historia. Viver-se-á cada vez mais um grande fervor criativo, em que surgirão mais e mais “autores” prontos a carregar e descarregar os seus próprios clips na Internet. È neste contexto que me proponho criar uma estrutura para um documentário sobre a vida de Camilo Castelo Branco, composto por diversos e ilimitados clips, com incondicional proveniência. Claro que haverá sempre o “risco” da verdade ser alterada. Mas esta, é sempre passível de ser ficcionada e alterada. O que realmente importa é a harmonia entre o que dizer e como o dizer, entre a arte e o documento. E neste caso o verdadeiramente importante é preservar a memória sobre a vida e obra do escritor. Com mais ou menos detalhe, mais ou menos talento, maiores ou menores percentagens de realismo e irrealismo, maior ou menor delirio criativo e inconformidade. Fica aquí ( a titulo de exemplo de um texto a ficcionar ) este magnífico texto do escritor, referindo-se aos seus momentos de maior inspiração criativa.
“Nesta deplorável enfermidade, que há seis anos me estila no cérebro gota a gota a peçanha da morte , achei traça de me vingar do acaso que embala o regalado dormir do meu cão, e me estrondeia nos ouvidos o marulhar das vagas entre penhascos. Vou ao jazigo das minhas ilusões, exumo os esqueletos, visto-os de truões, de príncipes, de desembargadores, de meninas poéticas à semelhança das que eu vi quando a poesia era o aroma dos seus altares. Visto-me também eu das cores prismáticas dos vinte anos, aperto a alma com as garras da saudade até que ela chore abraçada ao que foi . E, depois, nesse festim de mortos conversamos todos: e eu, no alto silêncio da noite, escrevo as nossas palestras. Às vezes, entre muitos estridores que me ressoam nos ouvidos, o mais distinto é o dobre a finados. É quando a aurora reponta: a luz espanca As imagens cujo meio de vida é a treva e o silêncio. Venho então sentar-me a esta banca, dou formas dramáticas ao diálogo dos meus fantasmas, e convenço-me de que pertenço bem aos vivos , ao meu século, ao balcão social, à industria, mandando vender a Ernesto Chardron as minhas insónias.”
Noites de Insónia
Porto, Livraria Chardron , de Lello & irmão Editores1929. Vol. 1 p. 7-8.
Objecto
Filme documentário em vídeo digital, composto por vários clips sobre a vida e obra de Camilo Castelo Branco, e uma plataforma de acolhimento, divulgação e distribuição dos clips.
Metodologia
Pesquisa/investigação para uma primeira fase. Numa segunda etapa definirei todas as fases do projecto, que passarão pele criação de um guião, filmagens edição dos vídeos e elaboração da plataforma de acolhimento e distribuição dos clips.
Horizonte temporal
Começar no inicio do próximo semestre e terminar a estrutura básica e plataforma no fim do 3º semestre.
Bibliografia e Referências
- Toda a obra de Camilo Castelo Branco.
- Achega para uma bibliografia das bibliografias Camilianas, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1990, 33 p.
- CABRAL (ALEXANDRE) – Dicionário de Camilo Castelo Branco, Editoria Caminho, Lisboa, 1989.
- CABRAL (ANTÓNIO) – Camilo de perfil (1914); Camillo desconhecido (1918) e As polémicas de Camilo (1925).
- IN MEMORIAM DE CAMILLO – Edição de Ventura Abrantes, Lisboa, 1925
- LIMA CALHEIROS (JOSÉ PEDRO DE) – Catálogo das obras de Camilo Castelo Branco, Visconde de Correa Botelho, Porto, 1889, e Additamento e continuação das obras de Camillo Castelo Branco, Porto, 1890.
- MARQUES (HENRIQUE) – Bibliographia Camiliana, 1ª parte, Lisboa, 1894.
- MARQUES (HENRIQUE) – As tiragens especiaes da obra de Camillo, in A Revista, Porto, 1903-1904.
- MOTA (JOÃO XAVIER DA) – Camilliana. Colecção das obras de Camillo Castelo Branco, Rio de Janeiro, 1891.
- NEVES (ÁLVARO) – Camillo Castello Branco – Notas à margem em vários livros da sua biblioteva recolhidas por …, Lisboa, 1916, 161 p.
- NEVES (ÁLVARO) – “Estudos Camillianos – Bibliographia e Bibliotheconomia”, Lisboa, 1917, 16 p.
- PIMENTEL (ALBERTO) – O romance de romancista (1890) e Os amores de Camillo (1899).
- SANTOS (MANOEL DOS) – Revista Bibliografica Camiliana, Lisboa, 1916, III vols.
- SANTOS (JOSÉ DOS) – Descrição bibliográfica da mais importante e valiosa Camiliana que até hoje tem aparecido à venda no mercado compreendendo tôdas as obras originais, traduzidas ou prefaciadas por Camilo Castelo Branco tanto em suas primeiras como em susequentes edições, Lisboa, 1939.